Filmambiente - Painel Temático

Curadoria

Ynaê Lopes dos Santos

Rizoma das Américas: descolonização em movimento

Um olhar sobre os filmes desta edição, que percorrem as Américas como um rizoma: uma trama de raízes sem centro nem origem única. Neles, o território não é propriedade, mas relação: chão habitado, água poluída, mas defendida, floresta cultivada junto com a memória. O ponto de vista se desloca: quem narra são povos indígenas e comunidades postas à margem pela história oficial, que aqui ocupam o centro da imagem, da escuta e do tempo. Suas narrativas menos usuais misturam documento e sonho, arquivo e oralidade, denúncia e celebração, recusando tanto o exotismo do olhar de fora quanto a nostalgia de uma pureza congelada. A tradição aparece como prática viva, que se transforma para permanecer, em tensão com a devastação imposta pelas práticas predatórias do capitalismo — o avanço da mineração e do agronegócio, o envenenamento dos rios, a mercantilização de tudo o que tem vida e respira. Diante da lógica que converte território em recurso , essas obedecem outra gramática, nem sempre visível na escrita da história Se a unidade do continente nasceu da colonização, ela segue sendo refeita pelas diferentes formas de lutar — das retomadas de terra às retomadas da imagem. Nesses filmes, o cinema é ferramenta de (auto)determinação. Convidamos o público a assistir não como quem observa o outro, mas como quem se reconhece parte da mesma trama. Porque o rizoma não tem fora, estamos todos enredados nele.